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Futuro da Profissão

O que a inteligência artificial muda no trabalho do contador

Por André Kaunas, CEO da ABS Talents Publicado em Atualizado em

A inteligência artificial não elimina o contador, ela consome a parte repetitiva da rotina e desloca o valor para quem interpreta, revisa e conversa com o cliente. Isso muda o desenho do time: menos horas em lançamento e conciliação manual, mais horas em análise, consultoria e controle de qualidade. Escritório que só automatiza sem redesenhar cargos acaba com equipe ociosa em um lado e gargalo no outro.

A pergunta chega em quase toda conversa com sócio de escritório: quantas pessoas eu ainda vou precisar daqui a três anos.

A resposta útil não é um número. É outra pergunta: quanto do trabalho que a sua equipe faz hoje é padrão repetido, e quanto é julgamento técnico. A primeira parte é a que a automação alcança rápido, e ela costuma ser maior do que o escritório imagina.

O que a automação alcança primeiro na rotina contábil?#

O trabalho que segue regra estável e volume alto.

Leitura e classificação de documento fiscal, conciliação bancária de padrão conhecido, conferência de campo obrigatório, cruzamento entre obrigações, montagem de relatório recorrente. Nada disso exige interpretação, e tudo isso consome uma fatia relevante da capacidade instalada em escritório de porte médio.

O que não é alcançado com a mesma facilidade: decidir tratamento de operação atípica, sustentar uma posição tributária diante de risco, perceber que o número do cliente não bate com a realidade do negócio dele e explicar tudo isso para quem não é técnico.

Por que automatizar sem redesenhar cargos dá errado?#

Porque o tempo liberado não se transforma sozinho em valor.

Quando o escritório automatiza a conciliação e não muda nada na estrutura, acontece uma coisa previsível: a equipe de entrada fica com folga e a coordenação continua sobrecarregada, porque todo caso que a máquina não resolve sobe para o mesmo lugar de sempre.

O redesenho consiste em três movimentos. Realocar o tempo liberado para atendimento e análise, transformar revisão de saída automatizada em atribuição formal de um cargo, e subir o nível das perguntas que a equipe de entrada aprende a fazer desde o primeiro mês.

Que perfil passa a valer mais na contratação?#

Muda o peso relativo das competências, não a exigência técnica.

Antes, velocidade de execução era diferencial claro em nível de entrada. Com parte do volume automatizado, o que separa candidatos é a capacidade de perceber quando o resultado está errado, de investigar a causa e de comunicar isso com clareza.

Isso aparece na avaliação. Nas nossas sete camadas de triagem, a checagem técnica deixa de ser apenas domínio de rotina e passa a incluir raciocínio sobre caso fora do padrão, que é exatamente o trabalho que sobra para a pessoa.

Isso reduz o tamanho das equipes?#

Reduz a proporção de horas em tarefa repetitiva, e não necessariamente o número de pessoas.

Na maior parte dos escritórios que acompanhamos, o ganho é absorvido por dois lados: carteira que cresce sem contratação proporcional e serviços novos de consultoria que antes não cabiam na agenda. A pressão simultânea da reforma tributária empurra na mesma direção, criando funções que não existiam, como descrito no artigo sobre os cargos que a reforma tributária cria.

O escritório que encolhe o time na mesma velocidade da automação costuma descobrir tarde que perdeu justamente quem faria a análise que passou a ser vendável.

Por onde começar sem parar a operação?#

Por uma rotina, em uma área, com revisão obrigatória.

  1. Meça o tempo consumido por cada rotina recorrente durante um mês.
  2. Escolha a de maior volume e menor exceção para automatizar primeiro.
  3. Mantenha revisão humana em cem por cento das saídas nos primeiros ciclos e registre os erros.
  4. Só reduza a revisão quando a taxa de erro estiver estável e conhecida.
  5. Realoque o tempo liberado para uma entrega nomeada, com responsável e prazo.

O passo cinco é o que quase todo mundo pula, e é o único que transforma automação em resultado. Se o tempo liberado não for alocado com nome e dono, ele se dissolve na rotina e o escritório conclui, erradamente, que a tecnologia não trouxe ganho.

O que fica

  • A automação atinge primeiro a rotina repetitiva, não a interpretação nem a relação com o cliente.
  • Revisar saída de máquina vira competência formal e precisa estar escrita no cargo.
  • O escritório que automatiza sem redesenhar cargos gera ociosidade e gargalo ao mesmo tempo.
  • Perfil de contratação muda: pesa mais julgamento técnico e comunicação que velocidade de digitação.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial vai substituir o contador?

Não substitui a função, substitui parte das tarefas. Classificação de documento, conciliação simples e conferência de padrão são automatizáveis. Interpretação de norma, decisão sobre caso atípico e conversa de consultoria com o cliente continuam dependendo de gente.

Quais cargos ganham peso no escritório com automação?

Revisor técnico, analista de dados contábeis, especialista tributário e quem atende o cliente com foco consultivo. Cargos de entrada não desaparecem, mas passam a exigir critério de revisão desde cedo em vez de volume de digitação.

Como preparar a equipe atual para essa mudança?

Comece mapeando quanto tempo cada rotina consome hoje e o que dela é padrão repetido. Depois escolha uma rotina por área para automatizar com revisão obrigatória, e realoque o tempo liberado para análise e atendimento. Formação acontece na realocação, não em treinamento solto.

André Kaunas

CEO da ABS Talents

Fundou e lidera a ABS Talents, consultoria de recrutamento que atende exclusivamente escritórios de contabilidade em todo o Brasil. Escreve sobre o que aparece no funil todo dia: onde a contratação trava, o que faz um bom técnico aceitar ou recusar uma proposta e como o quadro de pessoas define o teto de crescimento do escritório.

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