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Como montar um plano de carreira em escritório contábil

Por André Kaunas, CEO da ABS Talents Publicado em Atualizado em

Plano de carreira em escritório contábil não é organograma bonito, é critério escrito de passagem entre níveis. Cada degrau precisa de três coisas objetivas: o que a pessoa domina, qual carteira ela sustenta e qual faixa corresponde. Sem esses três itens, promoção vira favor pessoal, faixa vira negociação individual e o profissional que entrega descobre no mercado o valor que o escritório não soube colocar no papel.

Quase todo escritório contábil diz ter plano de carreira. Quando pedimos o documento, aparece um organograma com caixas e nomes.

Organograma mostra quem responde para quem. Plano de carreira responde outra pergunta: o que exatamente eu preciso dominar para chegar no próximo degrau, e quanto passo a ganhar quando chegar. Enquanto essa resposta não estiver escrita, ela será dada pelo mercado, em uma entrevista que você não participa.

O que precisa estar escrito em cada degrau?#

Três blocos, sempre os mesmos, sempre objetivos.

  1. Domínio técnico. Quais obrigações a pessoa executa sozinha, quais ela revisa e quais ainda

dependem de conferência de terceiro.

  1. Carteira sustentada. Quantidade e complexidade de clientes sob responsabilidade direta,

porque é isso que define o peso real da cadeira.

  1. Faixa salarial. Piso e teto do degrau, com data da última revisão contra o mercado.

Se um dos três faltar, o degrau não existe na prática. Ele vira título, e título sem faixa não retém ninguém que sabe fazer conta.

Como fica a escada de níveis na prática?#

Um desenho que funciona para escritório de porte médio, usando as faixas de capital da nossa pesquisa de mercado como referência de posicionamento:

DegrauO que a pessoa faz sozinhaFaixa de referência
AuxiliarOrganiza documentos, lança rotina simples, apoia a equipeR$ 1.790 a R$ 1.950
AssistenteExecuta a rotina do cliente com conferência da liderançaR$ 2.850 a R$ 3.100
Analista plenoFecha a carteira própria e responde ao clienteR$ 5.060 a R$ 5.500
Analista sêniorFecha casos complexos e revisa o trabalho de outrosR$ 6.620 a R$ 7.200
EncarregadoDistribui carga, garante prazo e forma quem está abaixoR$ 7.820 a R$ 8.500
CoordenadorResponde por área inteira, indicador e cliente estratégicoR$ 9.080 a R$ 10.000

Os valores acima são de região 1. Ajuste pela sua região antes de publicar internamente, e trate a tabela como ponto de partida do desenho, não como decisão pronta.

Existe carreira para quem não quer liderar?#

Precisa existir, e essa é a falha mais cara dos planos improvisados.

Quando o único caminho para crescer é virar coordenador, o escritório promove o melhor técnico para uma função que ele não escolheu. Perde o melhor técnico e ganha um coordenador desmotivado.

A saída é uma trilha técnica paralela: especialista fiscal, especialista em reforma tributária, revisor de contabilidade societária. Faixas comparáveis às da liderança no mesmo nível, autonomia sobre casos complexos e responsabilidade por formar os outros. Sem cargo de gestão, com peso equivalente.

Como fazer a promoção acontecer sem virar negociação individual?#

Com calendário e com comitê.

Defina duas janelas por ano de avaliação de degrau. Nessas janelas, a liderança apresenta os casos contra os critérios escritos, e a decisão é tomada em conjunto, não em conversa de corredor. Quem não passou recebe por escrito o que falta, com prazo para reavaliação.

Fora das janelas, muda apenas o que for correção de faixa por mudança de carteira, que é outro mecanismo e precisa ser imediato. Carteira que cresce hoje e faixa que muda em abril é a receita do pedido de demissão descrita no artigo sobre turnover de analista contábil.

Com que frequência revisar as faixas?#

Uma vez por ano no mínimo, e sempre que a estrutura mudar.

Faixa velha esvazia o plano inteiro. Se o degrau de analista sênior foi definido dois anos atrás e o mercado subiu, seu melhor sênior está sendo pago abaixo do piso atual da função e ele já sabe disso, porque recebe abordagem de recrutador todo mês.

Para ancorar a revisão em dado comparável por área, nível e região, use o plano de cargos e salários do mercado contábil.

Quando vale trazer alguém de fora para desenhar isso?#

Quando o escritório já tentou duas vezes e o documento não saiu do rascunho, ou quando a mesma cadeira rodou mais de uma vez em pouco tempo.

Estrutura de cargos, faixas, avaliação e sucessão são um bloco só. Foi por isso que o Talents 360 existe: fazer esse desenho com dado de mercado ao lado, para que o plano nasça aplicável e não como mais um arquivo parado na pasta da diretoria.

O que fica

  • Cada degrau precisa de critério técnico, carteira correspondente e faixa definida.
  • Promoção sem critério escrito vira favor, e favor não retém quem entrega.
  • A trilha técnica precisa existir ao lado da trilha de liderança, com faixas comparáveis.
  • Plano de carreira só funciona quando a faixa de cada degrau é revisada contra o mercado.

Perguntas frequentes

Quantos níveis um escritório contábil precisa ter?

Cinco níveis cobrem a maioria dos escritórios: auxiliar, assistente, analista, encarregado e coordenação. Escritórios acima de cinquenta pessoas costumam abrir júnior, pleno e sênior dentro do nível de analista, porque é onde a diferença de complexidade é maior.

Plano de carreira precisa vir com aumento garantido?

Precisa vir com faixa definida por degrau, o que não é a mesma coisa. O compromisso é que quem atingir o critério do degrau entra na faixa daquele degrau. Sem faixa associada, o plano é apenas uma lista de títulos e não muda decisão nenhuma.

Como definir a faixa de cada degrau?

Parta da pesquisa de mercado por área, nível e região, ajuste ao porte do escritório e à complexidade da carteira, e revise a cada doze meses. A faixa precisa ter piso e teto, para que exista espaço de evolução dentro do próprio degrau.

André Kaunas

CEO da ABS Talents

Fundou e lidera a ABS Talents, consultoria de recrutamento que atende exclusivamente escritórios de contabilidade em todo o Brasil. Escreve sobre o que aparece no funil todo dia: onde a contratação trava, o que faz um bom técnico aceitar ou recusar uma proposta e como o quadro de pessoas define o teto de crescimento do escritório.

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