ABS Talents
Reforma Tributária

Os cargos que a reforma tributária cria no escritório contábil

Por André Kaunas, CEO da ABS Talents Publicado em Atualizado em

A transição para CBS e IBS não redistribui tarefas dentro do time fiscal, ela cria funções que o organograma do escritório contábil ainda não tem. Especialista em transição, analista de crédito e recuperação, e consultor de impacto tributário deixam de ser luxo de escritório grande. Quem forma esses perfis antes do prazo negocia; quem forma depois paga prêmio de escassez.

A conversa sobre reforma tributária no escritório contábil parou em software e em treinamento. Os dois são necessários e nenhum dos dois é o gargalo.

O gargalo é que a transição pede trabalho que ninguém no organograma atual tem na descrição da função. E cargo que não existe não se resolve com curso.

Por que o time fiscal atual não absorve a reforma?#

Porque a natureza do trabalho muda, não só o volume.

O analista fiscal foi formado para apurar dentro de uma regra estável e entregar no prazo. É um trabalho de execução com margem de erro baixa, e as pessoas boas nisso são boas justamente porque dominam a rotina.

A transição pede outra coisa: comparar cenários, sustentar interpretação em terreno sem jurisprudência e explicar consequência para um cliente que precisa decidir. É trabalho de julgamento, não de rotina.

Pedir os dois da mesma pessoa, ao mesmo tempo, durante o período em que os dois regimes convivem, é como pedir que ela feche o mês e reescreva o método na mesma semana.

Qual é o primeiro cargo que aparece: o especialista em transição?#

É o perfil que os briefings pedem primeiro, e o mais difícil de achar pronto.

Essa pessoa opera os dois regimes em paralelo, mantém o comparativo por cliente e responde por que o número mudou. Ela não substitui o time fiscal, ela dá cobertura para que o time continue entregando enquanto o modelo se estabiliza.

O que procuramos nessa cadeira é sempre a mesma combinação: alguém que já apurou em ambiente complexo, que aguenta ambiguidade sem travar e que consegue escrever o raciocínio de forma defensável. A terceira parte elimina mais candidatos que as duas primeiras.

Nos processos que conduzimos para essa função, os 100 profissionais mapeados por vaga do nosso funil padrão são piso, não média: é a cadeira em que mais ampliamos o mapeamento antes de fechar a shortlist de cinco, porque a oferta de gente com prática nos dois regimes ainda é pequena.

O analista de crédito e recuperação vale uma cadeira própria?#

Nos escritórios com carteira industrial e de comércio, vale.

O modelo de não cumulatividade ampla muda o jogo do crédito. Crédito não aproveitado deixa de ser detalhe de apuração e vira dinheiro que o cliente perde de forma recorrente, mês após mês, sem perceber.

Alguém precisa olhar isso de forma sistemática por carteira, não como achado eventual no fechamento. É uma função que se paga sozinha, e é o argumento mais fácil de sustentar com o sócio, porque a entrega tem número.

O perfil é mais raro do que parece: exige leitura de operação do cliente, não só de nota fiscal.

E o consultor de impacto tributário?#

É o cargo que separa escritório que entrega obrigação de escritório que entrega decisão.

Essa pessoa senta com o cliente antes da mudança e mostra o efeito no preço, na margem e no fluxo de caixa. Ela responde a pergunta que o empresário realmente faz, que nunca é sobre alíquota, e sim sobre quanto vai sobrar.

É a função mais escassa das três, porque combina base técnica sólida com capacidade de conversar com quem decide. Quem tem as duas coisas hoje está empregado, satisfeito e recebendo abordagem de recrutador toda semana.

Também é a que mais muda a relação comercial do escritório. Cliente que recebe essa conversa troca de fornecedor com muito menos frequência.

Como preparar o quadro antes do prazo?#

Formação interna e contratação externa não competem, elas cobrem janelas diferentes.

  1. Mapeie quem no time já demonstra julgamento, não só execução. Costumam ser duas ou três pessoas.
  2. Exponha essas pessoas a caso real com acompanhamento, não a curso gravado.
  3. Contrate de fora a função que o seu calendário não consegue formar a tempo.
  4. Defina a faixa da nova cadeira antes de abrir, e não durante a negociação com o primeiro candidato.
  5. Comunique a trilha para quem ficou, ou você forma especialista para o concorrente.

O passo três é onde a maioria trava, porque abrir uma função que não existia exige decidir estrutura, e não só preencher vaga.

O que muda no processo de contratação para esses perfis?#

Praticamente tudo na etapa de validação.

Para cargo novo, currículo diz menos que o normal, porque ninguém tem cinco anos de experiência em um regime que ainda está entrando. A avaliação precisa ir para o que a pessoa faz diante de um caso sem resposta pronta.

Nas sete camadas, a primeira deixa de perguntar quais obrigações a pessoa executou e passa a perguntar como ela sustentou uma posição em terreno incerto. A sexta camada alinha pretensão e viabilidade antes da entrevista final, o que importa ainda mais quando a faixa do cargo é nova e não tem referência consolidada.

A sétima camada é a que protege o prazo. Ela valida intenção real de mudança, outros processos em andamento, risco de contraproposta do empregador atual e data possível de início. Para perfil escasso, contraproposta é regra, não exceção, e descobrir isso na semana da assinatura custa o processo inteiro.

A shortlist sai em 15 dias úteis contratuais, contados do briefing alinhado. Se a contratação não se sustentar dentro do período de 45 dias, o ciclo de reposição é realizado sem custo para o escritório.

Quando essa janela fecha?#

Ela fecha quando o cliente médio começar a cobrar, porque nesse momento todos os escritórios procuram o mesmo perfil na mesma semana.

Escassez não faz o profissional aparecer, faz a faixa subir e o prazo esticar. Quem já formou ou já contratou nessa hora está negociando renovação de contrato com o cliente, e não vaga com candidato.

A diferença entre os dois grupos não vai ser conhecimento técnico da lei. Vai ser quem olhou o organograma a tempo.

O que fica

  • A reforma cria funções novas, não apenas uma camada extra de trabalho para o time fiscal atual.
  • O perfil mais escasso não é técnico puro, é quem traduz impacto tributário para o cliente decidir.
  • Formar internamente leva mais tempo que o calendário da transição permite em boa parte dos escritórios.
  • Escritório que espera a escassez chegar contrata pior e mais caro que quem se move antes.

Perguntas frequentes

Quais cargos novos a reforma tributária cria no escritório contábil?

Três funções aparecem com mais frequência nos briefings que recebemos: especialista em transição tributária, analista de crédito e recuperação, e consultor de impacto tributário. Nenhuma delas é o analista fiscal atual com atribuição extra.

Dá para formar essas pessoas dentro de casa?

Dá, e é o caminho mais barato quando existe tempo. O problema é o calendário: formar um especialista em transição a partir de um analista pleno leva meses de exposição a caso real, e a demanda do cliente não espera a curva terminar.

Quando começar a contratar para a reforma?

Antes de o cliente perguntar. Quando a demanda vira urgente em todos os escritórios ao mesmo tempo, o mesmo perfil passa a ser disputado por muitos e a faixa se descola do cargo tradicional.

André Kaunas

CEO da ABS Talents

Fundou e lidera a ABS Talents, consultoria de recrutamento que atende exclusivamente escritórios de contabilidade em todo o Brasil. Escreve sobre o que aparece no funil todo dia: onde a contratação trava, o que faz um bom técnico aceitar ou recusar uma proposta e como o quadro de pessoas define o teto de crescimento do escritório.

Leia também